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Parabéns calouros de 2007!

Durante o ensino médio, frequentemente fantasiamos a ilusão de que os professores da faculdade serão todos perfeitos. Após passar no vestibular, contudo, encontramos os mais variados tipos de professores e logo percebemos o quanto fomos precipitados. Existem vários tipos de professores, dentre eles, podemos destacar:

  • Aqueles que realmente gostam do que fazem, tanto em termos de pesquisa como de ensino, dando excelentes aulas e fazendo ótimas pesquisas.
  • Aqueles que acham que são pagos apenas para pesquisa e não fazem o mínimo de esforço para darem uma aula de qualidade.
  • Aqueles que sabem muito a matéria dada.
  • Aqueles que não sabem absolutamente nada da matéria dada.
  • Os enganadores, aqueles que gostam de passar 5 ou 6 livros como bibliografia da disciplina ministrada (mas que ele próprio não leu nem 20 páginas de cada um deles).
  • Os enroladores, aqueles que durante uma aula de 2 horas, usam apenas 15 minutos da mesma para “ensinar” algo, deixando o restante para contar piadas e fazer gracinhas para passar o tempo…
  • Os conservadores, aqueles que ensinam exatamente o que aprenderam durante sua própria graduação (pelo menos 10 ou 15 anos atrás), sem alterar ou melhorar nada. Tive um professor que chegava ao ponto de pegar a matéria que tivera copiado da lousa,  durante a sua própria graduação (em seu velho fichário, com as folhas amareladas e tudo) e passá-la para seus alunos, sem alterar  uma vírgula do que estava escrito. Inclusive os erros, cometidos por seu professor da época, também eram “copiados e colados” na lousa.

Hoje, revirando minhas pastas, encontrei o seguinte artigo guardado por mim e publicado originalmente na revista Veja em 21 de fevereiro de 2007. Nele, o famoso consultor de empresas (e também crítico) Stephen Kanitz resume brilhantemente o que acabei de falar acima. Abaixo, segue o artigo na íntegra (que também pode ser lido em seu site oficial aqui). Fica a dica para os calouros não fantasiarem demais seus desejos e, como consequencia, virem a se decepcionar no futuro. Hoje, mais do que nunca, quem faz a faculdade é o aluno, não os professores ou o nome da mesma.

 

Stephen Kanitz

Stephen Kanitz

Mais de 1,5 milhão de jovens brasileiros começam neste mês a derradeira etapa de sua educação. Meus parabéns! O grande problema que vocês vão enfrentar é que o conhecimento humano está dobrando a cada nove meses. Seguindo esse raciocínio, dois anos depois de formados, entre 60% e 80% de tudo o que vocês aprenderam estará obsoleto, dependendo da profissão. Isso se seus professores ensinarem o que há de mais novo em sua especialidade, o que nem sempre acontecerá.

Vocês provavelmente encontrarão três tipos de professor. Os ultraconservadores, que ainda ensinam “conhecimentos” de 1880. Na realidade, dogmas de um mundo que não existe mais. Percebam como vocês encontrarão muito poucos professores que se definem como neoliberais, neomarxistas, neofreudianos ou neo alguma coisa. Neo significa novo. No fundo, não são progressistas como dizem, mas ultraconservadores. Acham que o mundo não mudou ou então pararam no tempo, como todo conservador.

Outro grupo de professores é o dos enganadores, aqueles que não se atualizam e dão aulas mesmo assim. Não se reciclam há anos, ensinam o que era novo dez anos atrás. Ou, pior, ensinam as mesmas coisas que eles próprios aprenderam quando estudavam. Se tiverem sorte, vocês também encontrarão um pequeno grupo de professores criativos e visionários, que criam e mostram como será o mundo de amanhã. São eles que vão inspirá-los a tentar fazer o que ninguém fez antes, são eles também que inspiraram quase todos os jovens que inventaram esses sites na internet.

O que muitos de seus professores ainda não perceberam é que o conceito de conhecimento humano mudou. Não existe mais o conhecimento perene, guardado a sete chaves, restrito às “lides acadêmicas”. As universidades não são mais as “casas do saber”, as “catedrais do conhecimento”, como muitas se autodefinem. Hoje, o conhecimento humano é de curta duração, poderíamos até dizer descartável, usado duas ou três vezes e jogado fora, quando não faz mais sentido guardá-lo. Isso os obrigará a repensar e a gerar novo conhecimento, porque provavelmente o futuro precisará de soluções nunca vistas.

Estou exagerando um pouco para que vocês entendam aonde quero chegar. O importante é vocês aprenderem a criar conhecimento, e não somente a usar o conhecimento do passado. Eu utilizo o termo administrativo “conhecimento just in time”. Vocês terão muitos problemas a resolver, e terão de saber como analisá-los, gerando uma solução ou “conhecimento” apropriado, que não necessariamente servirá para o resto da vida. Daqui a alguns anos, a situação será outra, requerendo nova análise e solução.

Que algumas coisas são perenes, como 2 + 2 = 4 e muitas leis da física, não há a menor dúvida. Mas o que estou sugerindo é que vocês tomem o cuidado de sempre questionar seus professores, para se certificar de que o conhecimento do passado será de fato útil no futuro. Max Weber, Keynes e Freud escreveriam a mesma coisa se estivessem vivos hoje? É isso que vocês precisam descobrir. Até pode ser que sim, mas é melhor desconfiar sempre.

O que eu peço a vocês, calouros de 2007, é que se concentrem em como gerar conhecimento. Como observar, como identificar variáveis relevantes, os personagens vitais do problema e os interesses. Como analisar alternativas e tomar decisões. Usei muito pouco das teorias que me ensinaram na faculdade. Meu sucesso profissional foi devido muito mais ao conhecimento que eu próprio gerei, que eu mesmo criei, do que às teorias e técnicas que mal me ensinaram.

A “faculdade” que vocês precisam adquirir é a da criação, da criatividade, da geração de conhecimento, e não a da erudição, do academicismo ou a da decoreba que se alastra pelo país.

Infelizmente, vocês terão de agradar aos dois primeiros tipos de professor repetindo o passado que eles querem ouvir, senão não serão aprovados. Mas aproveitem os próximos quatro ou cinco anos procurando e prestigiando os professores criativos, aqueles que de fato pesquisam o futuro e não somente o passado, e juntos criem o conhecimento para resolver os problemas atuais do Brasil, e mandem-nos para mim ou coloquem na internet.
Saibam distinguir quem é quem, e boa sorte!

Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School

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